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Nenhuma estratégia valiosa subsiste a uma marca que não seja valiosa

  • Foto do escritor: Ricardo Macedo
    Ricardo Macedo
  • 12 de fev.
  • 9 min de leitura

Você pode ter a melhor estratégia do mercado. O plano mais sofisticado. A execução mais disciplinada. O time mais talentoso. E ainda assim fracassar.


Não por incompetência. Não por falta de recursos. Não por timing errado. Mas porque construiu tudo isso sobre uma marca que ninguém lembra, ninguém confia, ninguém deseja.


A crença de que uma estratégia brilhante pode compensar uma marca fraca é uma das falácias mais caras do mundo corporativo. Executivos passam meses refinando planos estratégicos, modelando cenários, otimizando alocação de recursos. E tratam marca como algo que "o marketing resolve depois". Como se fosse decoração, e não fundação.


A Interbrand passou 25 anos medindo o custo dessa ilusão: US$3,5 trilhões. É o valor que as 100 marcas mais valiosas do mundo deixaram na mesa por tratarem de branding como despesa tática em vez de ativo estratégico. Se tivessem investido de forma consistente em marca ao longo desse período, valeriam US$ 6,9 trilhões hoje. Quando valem a metade US$ 3,4 trilhões.


A diferença entre o que poderiam ser e o que são é maior que o PIB da França. E o mais perturbador, essas são as melhores marcas do mundo. Imagine o que empresas com marcas medianas estão deixando evaporar.


O experimento que ninguém queria fazer


Em 2020, o Airbnb fez algo que nenhum CMO recomendaria: cortou 58% do orçamento de marketing. A maior parte do corte veio de marketing de performance, aqueles anúncios de retargeting que te perseguem pela internet depois que você pesquisa uma viagem. O resultado deveria ter sido catastrófico. Queda de tráfego. Colapso de reservas. Pânico no board.


Não foi nada disso.


90% do tráfego permaneceu intacto. Brian Chesky, CEO, foi direto em uma entrevista que deveria ser leitura obrigatória para todo CFO: "Podemos reduzir marketing a zero e ainda ter 95% do mesmo tráfego do ano anterior." A empresa registrou lucros recordes no trimestre seguinte, com resultado líquido subindo 280%. E Chesky foi além: "Nunca mais vamos voltar a gastar a mesma porcentagem de receita em marketing que gastávamos em 2019."


O Airbnb não descobriu um hack. Descobriu o óbvio que a indústria havia esquecido; quando você constrói uma marca forte por anos, ela trabalha para você mesmo quando você para de pagar. Quando você aluga atenção via performance marketing, ela desaparece no segundo em que você para de pagar. Um é ativo. A outra é despesa.


A Adidas aprendeu a mesma lição, só que pelo caminho mais caro e mais humilhante. Em outubro de 2019, Simon Peel, Diretor Global de Mídia, fez uma confissão pública que ecoou pela indústria inteira. A alocação de publicidade da empresa era 23% marca versus 77% performance. Exatamente o inverso do que três décadas de pesquisa acadêmica recomendam.


"Tínhamos um entendimento de que era a publicidade digital que estava impulsionando vendas de e-commerce," admitiu Peel. "Consequentemente estávamos sobre-investindo nessa área."


A descoberta veio por acidente. O Google AdWords quebrou na América Latina. A expectativa era queda imediata em tráfego e receita. O time de marketing segurou a respiração esperando o desastre. Não aconteceu. Nada mudou. A modelagem econométrica posterior revelou que 65% das vendas vinham de atividade focada em marca, não de performance. A Adidas estava pagando caro para colher o que a marca já havia plantado anos antes. O marketing de performance estava recebendo crédito por vendas que a marca havia construído.


A matemática que CEOs ignoram


Les Binet e Peter Field passaram 30 anos analisando quase mil casos de efetividade de marketing. Não é opinião. É o maior estudo longitudinal já feito sobre o que funciona e o que não funciona em marketing. A conclusão é tão simples que parece suspeita: a alocação ótima é 60% para construção de marca e 40% para ativação de vendas. Em algumas categorias, como serviços financeiros, o ideal para marca chega a 80%. Pesquisa atualizada em 2018 elevou a proporção geral para 62/38.


Mas o dado mais assimétrico dessa pesquisa é o que deveria tirar o sono de qualquer CFO que já cortou verba de branding para "otimizar" resultados de curto prazo. Sub-investir em marca causa 56% de perda em efetividade e ainda enfraquece a marca para o futuro. Sobre-investir em marca causa apenas 20% de perda em efetividade, mas a marca permanece forte. O risco de errar para menos é quase três vezes maior que errar para mais.


Leia de novo: errar investindo demais em marca custa menos da metade do que errar investindo de menos.


E mesmo assim, a pesquisa do IPA mostra que marketeiros tipicamente sub-alocam orçamento para construção de marca em pelo menos 14 pontos percentuais abaixo do ideal. Peter Field foi categórico: "Esta sub-alocação é a razão central pela qual os níveis de efetividade vêm caindo. Estamos permitindo que marcas enfraqueçam."


A BCG quantificou o custo de recuperação com uma precisão que deveria ser enquadrada na parede de toda sala de reunião: cada US$1 cortado de investimento em marca custa US$1,92 para recuperar o terreno perdido. Cortar branding não é economia. É dívida com juros compostos. E como toda dívida ignorada, ela cresce silenciosamente até virar crise.


O cemitério das estratégias brilhantes


A Kodak inventou a câmera digital em 1975. A empresa que se tornou sinônimo de fracasso em inovação foi a primeira a criar a tecnologia que a matou. Tinha 90% do mercado de filmes e 85% do mercado de câmeras nos anos 70. Era uma das marcas mais valiosas do mundo. Declarou falência em 2012.


O CEO George Fisher verbalizou o problema antes do colapso, aparentemente sem perceber a gravidade do que estava dizendo: "A Kodak considerava a fotografia digital como o inimigo, um juggernaut maligno que mataria o negócio de filmes."


O problema não foi estratégico. A Kodak tinha estratégias de diversificação. Tinha laboratórios de P & D. Tinha recursos financeiros. Tinha talento. O problema foi que a marca Kodak significava "filme", não "captura de memórias". Quando o produto morreu, a marca não tinha ponte para a inovação. A estratégia de diversificação existia no papel. A marca não conseguia sustentá-la na mente do consumidor. Ninguém queria uma câmera digital de uma empresa de filmes.


A Nokia controlava mais de 40% do mercado global de celulares no auge. Era a marca mais valiosa da Europa. Quando um engenheiro apresentou um protótipo de touchscreen, a resposta gerencial entrou para a história como exemplo de cegueira corporativa: "Interessante, mas não é assim que os telefones funcionam." Um ano depois, a Apple lançou o iPhone e redefiniu o que os telefones um dia já foram.


A marca Nokia significava "hardware confiável" quando o mercado migrou para "experiência de software integrada". A empresa tinha engenheiros brilhantes, recursos e distribuição global. A estratégia de produto existia. A marca não conseguia carregá-la. Ninguém queria um smartphone com software da empresa que era do hardware durável.


A BlackBerry tinha promessa de marca focada em segurança e confiabilidade para enterprise. Era o telefone de presidentes e executivos. Quando a Apple lançou o iPhone, a liderança avaliou através de lentes corporativas: "Quem precisa de touchscreen?" A força de marca em um segmento não se transfere automaticamente para outro. A estratégia de defesa existia. A marca não tinha elasticidade para executá-la. Ninguém queria um iPhone dos e-mails corporativos.


Três gigantes. Três estratégias que faziam sentido no papel. Três marcas que não conseguiram sustentar a mudança necessária. O padrão é claro, não foi falta de estratégia. Foi a marca presa a uma identidade que o mercado estava abandonando.


O outro lado do espelho


A Apple captura 45% dos lucros globais de smartphones com apenas 17% de participação de mercado. Pense nisso, menos de um quinto do mercado, quase metade do lucro. Os preços do iPhone agora representam cerca de 20% da renda per capita americana média, versus 10% em 2007. A demanda permanece robusta. A lealdade de usuários iPhone é de 90%. Nove em cada dez clientes voltam.


A marca permite precificação baseada em valor onde clientes pagam por exclusividade percebida, inovação e status. Não por especificações. Um Android de US$300 faz praticamente tudo que um iPhone de US$1.200 faz. E mesmo assim, filas se formam em lançamentos. A estratégia de premium pricing só funciona porque a marca sustenta a promessa. Sem a marca, seria apenas um telefone caro.


A Tesla construiu uma capitalização de mercado de US$1 trilhão gastando aproximadamente zero em publicidade tradicional. Compare com Ford, Toyota e GM gastando bilhões anualmente em comerciais de TV, patrocínios, campanhas digitais. O lançamento do Model 3 gerou mais de 400.000 pré-encomendas sem um único anúncio pago. Os 180 milhões de seguidores de Elon Musk no X funcionam como canais de marketing direto que concorrentes não conseguem replicar. A estratégia de crescimento orgânico só funciona porque a marca gera demanda espontânea. Sem a marca, seria apenas mais uma montadora precisando comprar atenção.


A Patagônia executou a campanha "Don't Buy This Jacket" em 2011, um anúncio de página inteira no New York Times na Black Friday pedindo para as pessoas não comprarem seus produtos e viu suas vendas crescerem 30% batendo o valor de US$543 milhões em 2012. A empresa atingiu US$1 bilhão em receita anual 5 anos depois. O paradoxo só faz sentido quando você entende que 62% dos consumidores querem que empresas defendam causas sociais. Dizer para clientes não comprarem aumentou vendas porque a marca carrega credibilidade em sustentabilidade. A estratégia de anti-consumo só funciona porque a marca sustenta o paradoxo. Sem a marca, seria suicídio comercial.


A LVMH articula a dinâmica com precisão cirúrgica. "Poder de precificação é função da desejabilidade da marca," declarou o CFO Jean-Jacques Guiony. "Marcas desejáveis podem aumentar preços e marcas não desejáveis não podem. É simples assim.” Margens operacionais da Louis Vuitton excedem 40%. Os preços aumentam 5-10% anualmente, e a demanda não cai, só aumenta, porque a escassez percebida alimenta desejo. A estratégia de escassez só funciona porque a marca sustenta a desejabilidade. Sem a marca, seria apenas uma bolsa cara encalhada nos estoques das lojas. 


O platô que ninguém quer admitir


O custo de aquisição de clientes subiu 222% na última década. Não é uma inflação normal. É o sintoma de um sistema que está quebrando. As marcas agora perdem em média US$29 por novo cliente adquirido, versus US$9 em 2013. O cliente que você "comprou" via performance marketing está te custando três vezes mais do que custava há dez anos. E o pior, ele não é mais leal do que era antes.


75% dos profissionais de performance marketing relatam retornos decrescentes em investimentos de mídia social. O algoritmo que antes entregava clientes baratos agora cobra mais caro por clientes piores. Após o iOS 14.5 da Apple em abril de 2021, taxas de opt-in para rastreamento caíram para algo entre 14% e 46%. O targeting preciso que justificava os investimentos em performance ficou cego da noite para o dia.


90% das startups D2C fecham até o ano cinco. A razão mais comum, segundo análise da inBeat Agency: "Dependência excessiva de anúncios pagos enquanto ignoram construção de marca, margens e lealdade." Performance marketing sem marca forte é como alugar clientes que nunca serão seus. Você paga para eles entrarem. Eles saem quando o concorrente paga mais ou anuncia mais barato. 


A Kantar BrandZ calculou que o portfólio das marcas mais fortes do mundo superou o S & P 500 em 88% e o MSCI World em 251% desde 2006. A McKinsey encontrou que as 40 marcas mais fortes geraram quase o dobro do retorno total aos acionistas comparado ao índice MSCI World em 20 anos. Em B2B, empresas com marcas robustas apresentam 20% melhor margem EBIT que concorrentes com marcas fracas.


A Bain demonstrou que em 21 categorias analisadas, a marca líder captura 2,9 vezes a participação de mercado do segundo colocado, mantendo preço e funcionalidades idênticos. Traduzindo, a marca líder poderia dobrar seu preço e ainda manter participação equivalente à segunda colocada.


A mudança de paradigma em tempo real


A indústria já recalibrou. O relatório State of Marketing Europe 2026 da McKinsey, publicado em novembro de 2025, é inequívoco, o branding foi citado como a prioridade número um para 2026 pelos líderes de marketing europeus. Não inovação de produto. Não inteligência artificial. Não otimização de performance. Marca. A capacidade de gerar distintividade, incorporar proposta de valor clara e demonstrar criatividade foi considerada crítica para construir diferenciação competitiva.


O dado de investimento confirma a mudança. 72% dos CMOs europeus planejam aumentar seus orçamentos de marketing em relação às vendas em 2026, comparado a apenas 49% que efetivamente fizeram isso no ano anterior. A confiança na marca como alavanca de crescimento está voltando.


Les Binet resumiu a mudança necessária: "O termo “performance” implica que tudo mais - publicidade de marca, PR, patrocínio - é desperdício. ‘Mídia não-trabalhante’, como às vezes são chamados. Isso é simplesmente absurdo. A pesquisa mostra que essas atividades de longo prazo são os principais impulsionadores de vendas e lucro."


A BCG foi ainda mais direta: "A evidência mostra que marketing de marca se comporta como capital. Quando sustentado, compõe. Quando sub-financiado, deprecia rapidamente." Em uma era onde IA democratiza criatividade e targeting se torna commodity, a distintividade de marca se tornou o último verdadeiro fosso competitivo.


A pergunta que você precisa fazer


Sua estratégia atual depende de uma marca que consegue sustentá-la?


Não a marca que você acha que tem, a que está no seu brandbook, a que seu time de marketing apresenta em reuniões de conselho. A marca que existe de verdade na mente do seu cliente. A marca pela qual ele está disposto a pagar mais. A marca que ele lembra quando precisa do que você vende. A marca que ele recomenda sem você pedir. A marca que ele defende quando alguém critica.


Se a resposta for não, você não tem um problema de execução. Não tem um problema de estratégia. Não tem um problema de time. Tem um problema de fundação. E nenhum ajuste tático vai resolver um problema estrutural.


Estratégias brilhantes executadas por marcas fracas são como carros de Fórmula 1 com tanques vazios. Impressionantes no papel. Inúteis na pista.


Fontes: Este artigo foi baseado em pesquisas e relatórios de: Interbrand Best Global Brands 2024; Kantar BrandZ Global Brand Equity Report; Les Binet e Peter Field, "The Long and the Short of It" (IPA, 2013) e atualizações subsequentes; McKinsey & Company, "The Future of Brand Strategy" e "Business Branding: Bringing Strategy to Life"; Bain & Company, "Brand Strategy That Shifts Demand"; Boston Consulting Group, "Building Lasting Brand Equity in the Age of AI" (2025); Byron Sharp, "How Brands Grow" (Ehrenberg-Bass Institute); além de dados públicos de Airbnb, Adidas, Apple, Tesla, Patagonia e LVMH.


Na Annexo, acreditamos que marca não é o que você diz sobre si mesmo. É o que sustenta tudo o que você quer ser. Sem ela, estratégia é só PowerPoint.

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